Experiência antropológica

 Experiência antropológica


Experimentando das minhas aventuras de homem de meia idade solteiro sem rumo, sem destino e sem moral, acordei hoje aqui nos meus pouco vultuosos aposentos na Vila Mariana, ludicamente dedicado a ter um dia legal sozinho. 


Tu já saiu sozinho? Já fez isso?

Tipo assim, te arruma, corta a unha do pé, faz a barba e um gargarejo de responsa, só pra ti mesmo?


Recomendo. Saia só. Ria sozinho. Fale sozinho pra todo mundo te achar maluco, dane-se. Divertidíssimo.


Por si só, uma experiência antropologica. Auto-antropológica, no caso.


E olha que coisa, ontem mesmo eu estava falando sobre experiências antropológicas e antropofágicas, daquelas que unem Tibiriçá à Tarcila do Amaral junto e misturado no mesmo balaio. Enfim, hoje o assunto veio a galope.


Acordei e nada na geladeira. Ok, eu moro na Vila Mariana e aqui tem coisa boa pra comer em qualquer boteco que vc parar. 


A sorte é que literalmente na esquina da minha casa - que é quase na esquina - tem um boteco muito interessante. Mesa na calçada, garçom japonês (já viu? tou falando que é experiência antropológica), comida boa e preço barato.


Sentei numa mesa na calçada e pedi uma feijoada. Mesmo estando sem tanta fome, quis comer feijoada e assim o fiz. 


De repente... chega um matuto.


São Paulo é cheio de matutos, e você ficar parando pra dar atenção pra eles, vai ficar louco e se arriscar gratuitamente.


Mas esse matuto me pareceu diferente. Um cara perto dos seus 60 anos me pedindo pra pagar um pão de batata pra ele.


Assim como acontecem todos os dias nesta indústria vital.


Só que eu estava sem pressa, sem medo, sozinho, com uma cumbuca de comida que eu sabia que não ia comer totalmente. Eu como pouco depois do transplante. Parece que não cabe toda a comida que a minha gula pede dentro de mim.


- Senta aí, tio. 

- Não, garoto. Só quero um pão de batata e não quero te incomodar.

- Tu gosta de feijoada? Come comigo aqui, eu não vou comer tudo isso. A gente divide.


Sentou.


Leandro. 58 anos. Marceneiro.


ERA O ANIVERSÁRIO DELE.


Comprovado no RG. Era o aniversário do cara.


Ele viu a cachaça que o japonês trouxe pra mim e pediu. Bom, depois do transplante, se eu tomar uma cachaça, eu certamente vou precisar de um terceiro fígado e isso realmente eu não quero.


Tomou a cachaça. Moderada e educadamente. Português correto. Boas idéias.


Fiz um amigo. Comemos a feijoada, falamos um trilhão de bobagens, rimos muito e bora cada um pro seu caminho. 


Acho que eu dei um aniversário legal pra um cara aleatório.


Pois então que viva o aleatório <3 


Paguei a conta e estes 90 reais entraram na lista de um dos mais inusitados que já gastei.


Bora pra próxima aventura, o dia tinha apenas começado. Saí na direção do Pastorinho, o meu novo melhor amigo. Um supermercado, se vc não é de São Paulo.


Já andou de patinete?


Patinetes estacionados entre mim e o Pastorinho já não são, exatamente, uma novidade e fazem parte do cenário da cidade. E justamente por isso mesmo que pensei que seria uma boa idéia alugar um patinete desses aí.


Domingo na Paulista é um rolê bem legal, tem shows, coisas pra comer e lá fui eu, montado num patinete elétrico rumo à Paulista.


Primeira decepção do dia.


15km/h no máximo. A maldita da responsabilidade que hoje em dia todo mundo tem que ter.


Parceiro, no meu tempo, fabricante colocava motor de Opala em patinete e vc que lutasse pra chegar vivo no seu destino.


Emoção mandava. Hoje em dia essa rapazeada Nutella não pode sofrer um arranhão que já vira um problema.


Só que 15km/h de velocidade num aluguel que vc paga por minuto, é uma coisa muito, mas muito desonesta.


Ou seja, vc não pode cair daquela bosta. Mas aquela bosta vai comer o seu dinheiro e você que ache isso legal.


Maldito patinete


Caro pra caramba. Quase R$1,00 o minuto. Fazendo uma conta de padeiro, mais caro que Uber, onde vc vai sentado no macio.


Paguei o valor mínimo, R$25,00 no PIX, sabendo que aquilo não ia me dar nem meia hora de felicidade.


Cheguei na Paulista. Clima legal, todas as tribos juntas: família, pessoal hippie, galera da quebrada... e de repente eu vejo na minha frente uma galerinha diferente...


Velhos, só topete branco. Camisa da seleção, bandeira de Israel e dos EUA. Uns 30 e poucos gatos pingados apertando o olhinho quando falavam em deus, em patria e em família.


Festa estranha com gente esquisita. Mas eu vou me abster do que eu penso a respeito disso.


Mas eu estava com meu patinete, era só entrar com cuidado pra não mandar um velho pra UTI, passar pela manifestação, desviar do boneco do Xandão e ver o que tava acontecendo lá no MASP, que é um dos pontos mais legais na Paulista no final de semana.


Mas eu estava com o meu patinete.


Uma merda de patinete. Que consome dinheiro com a mesma empatia que o nubank calcula os juros dos empréstimos que faz pra gente.


E este canalha, este maldito, este fruto do capitalismo de 15km/h do patinete resolveu ficar sem créditos NO MEIO DA MANIFESTAÇÃO BOLSONARISTA e me largou naquele lugar insalubre.


Olhei no aplicativo e ele me dizia sem nenhum carinho: "Coloque mais créditos e não deixe o patinete longe da sua base".


Coméquié coleguinha?


Tu tá querendo que eu leve esta merda de patinete até onde VOCÊ quer, tendo me deixado no meio do caminho, numa manifestação a favor de um político?


Pois desci do patinete, tomei o cuidado de colocar ele no pezinho (contra a minha vontade) e deixei ele lá.


Ele, o boneco inflável do Xandão, o palanque falando sobre anistia e os velhos apertando os olhinhos pra pedir regime militar.


Pelo menos ajudou a engordar a "multidão" flopadaça dos bolsonaros.


Só que a essa altura eu já tinha ficado muito do puto da vida por estar naquele lugar, pelo patinete ter me deixado na mão e pelos velhos apertando olhinho.


E achei que seria uma boa ideia andar no meio deles rindo, avisando a cada um que olhasse pra mim que o mito tá preso e que aquilo tudo era ridículo.


Sim, eu sei que não devia ter feito isso. Deixa os velhos lá, Dani. 


Mas não fui eu quem apanhei.


Alguém apanhou?


Calma que eu tou falando que o dia foi uma experiência emocionante.


Choveu


Não queria tomar chuva com os velhos de olhinho apertado. Saí rapidamente dali e avistei o Puppy.


Todo paulistano tem a obrigação de conhecer o Puppy. Simplesmente um dos bares de calçada mais famosos da cidade.


Parei, pedi uma Original, sentei numa mesa qualquer e fiquei esperando a chuva passar.


O garçom, por si só, também parecia uma experiência.


Um cara muito muito branco loiro de olho verde, gigante, coisa de 2m de altura, cara de louco e forte pra caramba.


Pensei: o cara parece tipo um Frankestein.


Aí me lembrei do conceito de Frankestein, e me lembrei que eu também sou feito de partes de outros corpos - meu fígado transplantado não me deixa mentir, e me solidarizei com o Garçom Frank.


Só que o garçom Frank estava muito muito animado, e do mais absoluto NADA, simplesmente MONTOU na porrada pra cima do coitado que estava na mesa ao meu lado.


Quebrou o cara inteiro em segundos, sob o olhar de um GCM gordo que esqueceu da sua função e estava ali, poeticamente aproveitando o UFC popular acontecendo à sua frente.


Todos correram do bar. De repente, estávamos eu, o GCM, o garçom possuído e o coitado todo lascado.


Bom, como regra em toda a briga de bar, peguei a minha Original e saí andando Paulista afora, sem lenço e sem documento. O quebra pau continuou, mas como todo cara prudente, eu não fiquei lá pra ver o final, embora seja bem fácil prever os acontecidos.


Domingo tem ônibus de graça em São Paulo. Entrei no primeiro que apareceu, visto que moro beeem perto da Paulista.


Cheguei em casa e pude apreciar todas as minhas coisas molhadas. Havia esquecido a janela aberta e a chuva da treta do Puppy caiu inteirinha sobre a minha cama, meu cobertor, meu computador e meu livro de receitas.


Refleti sobre todos os acontecidos do dia: o aniversariante, o patinete, os bolsonaros e o garçom carniceiro. 


E cheguei a uma conclusão. 


Sempre fui pára-raio de maluco. Sempre.


Mas acho que dessa vez a vida exagerou. 


Experiência antropológica é lagal, eu gosto. 


Mas uma de cada vez, por favor.

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